Mais um dia – Danilo Sá
Francisca acordou cedo. O dia seria longo e movimentado na pequena cidade
onde nasceu e viveu todos os dias dos…
Francisca acordou cedo. O dia seria longo e movimentado na pequena
cidade onde nasceu e viveu todos os dias dos seus quase 70 anos. A pele
enrugada denunciava a idade, o sorriso no rosto, porém, escondia os tempos
difíceis por qual já passou e a luta diária para continuar vencendo os desafios
atuais.
Como sempre faz, em primeiro lugar a família. Primeiro é hora de colocar
comida na mesa, sem direito a luxo. As duas filhas continuam morando em sua
casa, uma delas casada e com um filho, a outra abandonada pelo marido após o
nascimento do segundo rebento.
Naquele dia, a rotina a partir dali seria um pouco diferente. Dona
Francisca e sua família, assim como toda a vizinhança da comunidade, foram
convidados para uma grande festa na fazenda do prefeito. E, para aquele povo,
encontrar com os “homens importantes” da política era mais que uma honra.
Logo na chegada são muitos abraços e sorrisos. Todos muito bem
recebidos. Hora de reencontrar velhos conhecidos de uma eterna luta pela
sobrevivência. São vizinhos de uma miséria que insiste em se perpetuar na maior
parte do território brasileiro. E, pior, sem maior perspectiva de que um dia
terá seu fim.
A mesa, dessa vez bem servida, agrada a todos. Na rua, um poderoso carro
de som entoa cânticos onde se misturam nomes e números, são os candidatos do
prefeito. São eles que, alguns minutos depois, chegam no local. Todos estão
felizes. Parecem ter a certeza do dever cumprido, quando este na verdade jamais
será atingido.
Apertos de mão, mais abraços, frases de efeito, brincadeiras entre
“amigos” que, na verdade, nunca se viram. Com todos devidamente sentados,
começam os discursos. São demorados. Aplausos em sequência. Alguns, vão embora
sem serem percebidos. Dona Francisca e família continuam lá.
A noite chega e, com ela, o fim do encontro. Antes da ida para casa,
mais um lanche para fechar o dia. A despedida, recheada de agradecimentos,
deixa as filhas de Francisca felizes, importantes. Os homens entram em seus
carros, esses sim luxuosos, e vão embora, deixando para trás seus ouvintes do
dia e muita poeira.
Dona Francisa pega o neto mais novo pelo braço e chama as duas filhas.
Hora de voltar para casa, que fica localizada a alguns passos de lá. Ao chegar
no lar, doce lar, abre a porta improvisada, feita por um pedaço de madeira
velha, agradece aos céus pela alimentação daquele dia e deita na rede para mais
uma noite de sono. Feliz, por mais um dia.

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