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domingo, 10 de julho de 2016

CRÔNICA DO JORNALISTA ALDERICO LEANDRO HOMENAGEIA SAMUEL FERNANDES



ATÉ LÁ
Alderico Leandro
Faz muito tempo. Cinquenta e tantos anos. Era um dia de domingo ou coisa assim. Eu adentrei à discoteca da Emissora de Educação ou simplesmente Rádio Rural (de Natal) para pesquisar músicas, as mais belas e imponentes melodias do cinema havidas já naquela ocasião. O ano era 1960. Eu, tímido encontrei com um rapaz alegre e sorridente que, não sei como, me veio a cumprimentar como se nós nos conhecêssemos há longo tempo. Seu nome era Samuel Fernandes. Eu fiquei atônito de tão bela recepção feita de um momento só para um humilde companheiro de poucas horas. Eu, se bem lembro, era então a primeira vez que nós dois nos encontrávamos naquela manhã de domingo. Sorridente e afável, Samuel apresentou-se com sua elegante maestria de um rapaz tão só destemido para um rude senhor ninguém. Eu estava ali a procura de achar as mais brilhantes melodias gravadas em 12 rpm, com certeza, existentes nas repletas estantes feitas de imbuia ou algo mais parecido na Rádio Rural. Não foi preciso nem mesmo eu falar que estava a procuras de melodias raras e célebres, pois Samuel, com toda sua delicadeza, de um espaço apenas fez para mim a pesquisa das raras e encantadas melodias que só um nobre seria capaz de encontrar.
Vindo de uma emissora de Alto Falante do bairro do Alecrim, Samuel era então iniciante nesse processo do sem fio de uma emissora mais capacitada de ser ouvida até longe e mais distante a qualquer hora do dia ou da noite, por sua organização de ter as ondas curtas e médias, com certeza documentadas nas correspondências recebidas de países distantes como Suíça, Suécia, Italia, França, Alemanha, Bélgica e além da Espanha e Portugal. Havia, por esse tempo uma rede de ouvintes que recebiam o sinal distante dessa longínqua estação de uma emissora a transmitir direto do nordeste brasileiro. E Samuel Fernandes era o homem dos ouvintes estrangeiros. As correspondências recebidas eram remetidas de volta com um selo já então vindo marcando as posições dos horários e vozes dos locutores da ocasião. Isso era um incrível progresso para o Departamento de Transmissão da Radio. “Samuca”, como se chamava aqui na Emissora, por sua turma de amigos, mostrava-se de sorriso brilhante e alargado. Na verdade, era para mim, um desejo ardente e impressionante de um progresso para nós, humanos, destemidos em relatar os ocorridos do meio.
Tempos depois, dez anos ou mais, lá estava Samuca em outra estação, a TV-U. A primeira estação de televisão implantada em Natal. Eu, ainda fui por uma ou duas vezes naquele território diferente de tudo o que se sentia, na Rua Princesa Isabel, ocupando um espaço da Escola Industrial. Naquele tempo, bem mais maduro em sua notável experiência, Samuca, alegre e coloquial, sorrindo com graça, se acercou de mim para que eu participasse de um programa de TV na sua estação. E eu fui com a minha modesta distinção de um rapaz já então elegante. Por várias vezes nos encontramos na companhia de Ministros de Estado, Governadores e Estadistas. Samuca, sempre sorridente e afável com sua voz imponente afirmava o tom da verdadeira voz de um sério locutor. Cera vez, no dia 7 de Setembro de 1970, ele veio para apresentar o Jornal da Rural, naquela ocasião quando eu assumia toda a direção, lembrando que ele estava alí apenas para fazer a parte de locução, pois bem sabia ser eu o editor responsável. A data era o dia da Idenpendencia do Brasil. Eu agradeci e Samuca se mostrou feliz e solene. Logo após de então apresentar, voltou a cumprimentar-me e partiu para o seu ocasional destino.
Quantas vezes foram passadas eu não sei bem. Na loucura que todo o artesão tem o afã de fazer Jornal, poucas vezes soube do seu destino. Por vozes de amigos quase sempre eu ficava a tomar conhecimento que Samuel Fernandes estava pronto a apresentar uma solenidade em companhia de outro profissional em um local do mais alto gabarito. Certamente, nunca fui a essas solenidades com minha humildade de um fugidio precavido. Ela estava lá, com a sua sobriedade e irreverência com uma voz tão máscula e imponente capaz de destronar os mais celebre locutores de carro de propaganda. Samuel Fernandes foi um dos poucos a sobreviver a época de outro do rádio natalense. Até lá, meu mestre. Até lá.      

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